O dado revelado pela pesquisa — 4 milhões de mulheres convivendo diariamente com seus agressores no Brasil — não é apenas um número estarrecedor. É um retrato cruel da falência das políticas públicas de proteção e da incapacidade do Estado em garantir o direito mais básico: o de viver sem medo dentro da própria casa.
A convivência forçada com o agressor perpetua o ciclo de violência, expõe crianças a traumas irreparáveis e normaliza a brutalidade como parte da vida cotidiana. É uma epidemia silenciosa, que não aparece nas manchetes com a mesma frequência que outros crimes, mas que corrói a sociedade por dentro.
Não basta criar leis no papel.
Medidas protetivas sem fiscalização são inúteis.
Casas de acolhimento insuficientes deixam mulheres sem saída.
A dependência econômica aprisiona vítimas em relações abusivas.
E, acima de tudo, a impunidade alimenta a certeza de que agressores podem continuar a destruir vidas sem consequências reais.
O Brasil precisa encarar a violência contra a mulher como uma emergência nacional.
Isso significa ampliar a rede de proteção, garantir autonomia financeira às vítimas, acelerar processos judiciais e responsabilizar de forma exemplar os agressores. Cada mulher que convive com seu agressor é uma denúncia viva de que o sistema falhou.
A sociedade não pode se acostumar com esse cenário.
A dor de milhões de mulheres é um grito coletivo por justiça e dignidade.
Ignorar esse chamado é compactuar com a violência.
Esse editorial assume um tom combativo, cobrando diretamente o Estado e denunciando a normalização da violência.


